01 abril 2009

O PRINCIPEZINHO NO PLANETA DO GEÓGRAFO


"O sexto planeta era um planeta dez vezes maior. Era habitado por um velho senhor de idade que escrevia livros muito grossos.
- Olha! Cá temos um explorador! - exclamou ele, quando avistou o principezinho.
O principezinho sentou-se em cima da mesa para tomar fôlego. Já viajara tanto!
- De onde vens tu? - perguntou-lhe o senhor de idade.
- Que livro é este, tão grande? - perguntou o principezinho. O senhor está aqui a fazer o quê?
- Sou um geógrafo - respondeu o senhor de idade.
- O que é um geógrafo?
- É um cientista que sabe onde ficam os mares, os rios, as cidades, as montanhas e os desertos.
- Que interessante! - disse o principezinho. Isto, sim, é uma profissão! E pôs-se a olhar à volta: nunca tinha visto um planeta tão majestoso.
- É bem bonito, o seu planeta. Tem algum mar?
- Não faço ideia - disse o geógrafo.
- Ah! - o principezinho ficou muito desiludido. E montanhas?
- Não faço ideia - respondeu o geógrafo.
- E cidades e rios e desertos?
- Também não faço ideia - respondeu o geógrafo.
- Mas o senhor é geógrafo!
- Pois sou, mas não sou explorador - disse o geógrafo. Tenho uma falta terrível de exploradores. Porque não é o geógrafo que há-de ir à procura de cidades, de rios, de montanhas, de mares, de oceanos e de desertos. O geógrafo é importante demais para andar a vadiar. O geógrafo nunca sai do gabinate. É no gabinate que recebe os exploradores. Faz-lhes perguntas e toma nota das respostas. E se aquilo que um lhe conta parece interessante, manda instaurar um inquérito à moralidade dele.
- Porquê?
- Porque um explorador mentiroso desencadeava autênticas catástrofes nos livros de geografia. E um explorador bêbado também.
- Mas porquê? - perguntou o principezinho.
- Porque os bêbados vêem a dobrar e o geógrafo podia assinalar a existência de duas montanhas, quando, na realidade, só havia uma.
- Conheço uma pessoa que dava um péssimo explorador - disse então o principezinho.
- É possível. Mas continuando: quando os costumes do explorador parecem bons, então instaura-se um inquérito à descoberta dele.
- Vão ao sítio verificar?
- Não, era complicado de mais. Exige-se é ao explorador que apresente provas. Por exemplo, se ele tiver descoberto uma montanha enorme, exige-se-lhe que traga de lá uns calhaus enormes.
De repente o geógrafo ficou todo emocionado.
- Mas tu, tu vieste de muito longe! És um explorador! Anda, descreve-me o teu planeta!
E o geógrafo, depois de abrir o livro de registos, pôs-se a afiar o lápis. As descobertas dos exploradores são primeiro anotadas a lápis. Só são passadas a tinta depois de o explorador apresentar provas.
- Então, quando é que começas? - perguntou o geógrafo.
- Oh! Lá, onde eu vivo, não há grande coisa. É um sítio muito pequenino. Tenho três vulcões. Dois vulcões em actividade e um vulcão extinto. Mas nunca se sabe...
- Pois não, nunca se sabe... - disse o geógrafo.
- E tenho uma flor.
- As flores, não as assinalamos - disse o geógrafo.
- Porquê? É o mais bonito de tudo!
- Porque as flores são efémeras.
- E "efémero" quer dizer o quê?
- As geografias - disse o geógrafo - são os livros mais preciosos que há. Nunca passam de moda. É raríssimo que uma montanha mude de lugar. É raríssimo que um oceano se esvazie. Nós só escrevemos coisas eternas.
- Mas os vulcões extintos podem despertar - interrompeu o principezinho. E"efémero" quer dizer o quê?
- Para nós os vulcões estarem extintos ou em actividade é exactamente a mesma coisa. Para nós o que conta é a montanha. Essa não muda.
- Mas "efémero" quer dizer o quê? - repetiu o principezinho que, sempre que fizera uma pergunta, nunca em dias da sua vida desistira dela.
- Quer dizer que "está ameaçado de desaparição a curto prazo".
- Então a minha flor está "ameaçada de desaparição a curto prazo"?
- Evidentemente!
"A minha flor é efémera", pensou o principezinho, "e só tem quatro espinhos para se defender do mundo inteiro! E eu deixei-a lá sozinha!"
Pela primeira vez arrependeu-se de ter partido. Mas logo recobrou ânimo:
- E agora o que me aconselha a visitar?
- O planeta Terra - respondeu o geógrafo. É um planeta com boa reputação...
E o principezinho foi-se embora, sempre a pensar na flor."

Antoine de Saint-Exupéry, "O Principezinho", Editorial Presença



Como é cativante este “Principezinho”. Uma história de fantasia onde a ingenuidade e a maturidade se confundem e se fala de amizade, amor… e de Geografia.

O “Principezinho” no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=KAkNkSTtGWM

Sem comentários: